Paulo Roberto Gomes Fernandes explica que a construção do Gasoduto TAPI, que conecta o Turcomenistão à Índia, atravessando o Afeganistão e o Paquistão, consolidou-se ao longo dos últimos anos como um dos projetos de infraestrutura energética mais relevantes do mundo. Iniciado oficialmente em março de 2018, o empreendimento passou a simbolizar uma nova configuração geopolítica para a Ásia Central, tanto pela escala da obra quanto pelos impactos econômicos e estratégicos envolvidos.
Com extensão estimada em 1.814 quilômetros e capacidade para transportar cerca de 33 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano, o TAPI foi concebido para diversificar rotas de fornecimento, reduzir dependências regionais e estimular o desenvolvimento econômico em áreas historicamente instáveis. Desde o início, o projeto chamou a atenção da engenharia internacional pela complexidade técnica e logística, sobretudo nos trechos que atravessam cadeias de montanhas e regiões de difícil acesso.
Um projeto marcado por desafios técnicos e geopolíticos
Ao longo de seu traçado, o gasoduto atravessa áreas que exigem soluções construtivas sofisticadas. Estão previstos quase 76 túneis de diferentes extensões, além de travessias em terrenos acidentados, zonas sísmicas e regiões com limitações severas de infraestrutura. Esses fatores transformaram o TAPI em um verdadeiro laboratório de engenharia de dutos em larga escala.
Além dos desafios técnicos, Paulo Roberto Gomes Fernandes ressalta que o projeto também demandou acordos diplomáticos complexos. A travessia por países afetados por conflitos armados exigiu a criação de protocolos especiais de segurança e cooperação entre governos, forças locais e consórcios construtores. Ainda assim, o gasoduto foi defendido como uma iniciativa capaz de gerar milhares de empregos diretos e indiretos, além de receitas relevantes para os países de trânsito.
Tecnologia brasileira ganha espaço em etapas críticas da obra
Foi justamente nos trechos mais sensíveis do projeto, especialmente aqueles que envolvem túneis e ambientes confinados, que soluções desenvolvidas fora do eixo tradicional da engenharia global passaram a ser consideradas. A experiência acumulada em obras similares chamou a atenção dos responsáveis técnicos pelo empreendimento, que buscaram referências já testadas em projetos de grande porte.
Nesse contexto, Paulo Roberto Gomes Fernandes informou que a tecnologia brasileira de lançamento de dutos em túneis, aplicada anteriormente em obras no Brasil, passou a integrar o radar do consórcio internacional. O método, desenvolvido para permitir o avanço de tubulações em longas distâncias sem a necessidade de soldagem dentro do túnel, mostrou-se especialmente adequado às exigências do TAPI, onde segurança operacional e controle ambiental são fatores críticos.
A participação brasileira começou a ser discutida anos antes do início formal das obras, a partir de encontros técnicos realizados em eventos internacionais do setor de pipelines. Essas conversas evoluíram para reuniões institucionais no Turcomenistão, envolvendo empresas estatais responsáveis pelo projeto e fornecedores estratégicos de tecnologia.
Experiência internacional e reconhecimento técnico
Durante esse processo, Paulo Roberto Gomes Fernandes acompanhou pessoalmente as tratativas técnicas relacionadas ao projeto, representando a experiência acumulada da engenharia brasileira em obras complexas de dutos. À época, ele destacou que se tratava de um dos maiores desafios já apresentados à engenharia de pipelines com participação nacional, tanto pela escala quanto pelas condições geográficas envolvidas.

Segundo sua avaliação, o TAPI reunia elementos raramente combinados em um único empreendimento, longas extensões subterrâneas, terrenos montanhosos extremos, exigências de segurança elevadas e necessidade de execução em prazos rigorosos. Ainda assim, o projeto foi visto como uma oportunidade de demonstrar, em ambiente internacional, soluções já aplicadas com sucesso em obras entregues antes do prazo e sem intercorrências relevantes.
Impactos econômicos e novo mapa energético regional
Do ponto de vista energético, o Gasoduto TAPI representou uma mudança estrutural para o Turcomenistão, país que detém uma das maiores reservas comprovadas de gás natural do planeta. A diversificação dos mercados consumidores, antes concentrados em poucos destinos, passou a ser tratada como prioridade estratégica para o governo local.
Para Afeganistão e Paquistão, o gasoduto foi apresentado como vetor de desenvolvimento, com geração de receitas de trânsito, empregos e investimentos em infraestrutura associada. Já para a Índia, o projeto surgiu como alternativa de longo prazo para garantir segurança energética em um cenário global cada vez mais volátil.
Paulo Roberto Gomes Fernandes evidencia que, embora o TAPI tenha enfrentado atrasos, revisões e desafios ao longo dos anos seguintes, sua concepção original permanece como referência de integração energética regional. Trata-se de um projeto que extrapola a lógica puramente econômica e se insere em um contexto mais amplo de estabilidade, cooperação e reorganização geopolítica.
Um marco para a engenharia de dutos em escala global
Passados alguns anos desde o início das obras, o Gasoduto TAPI continua sendo citado como um dos empreendimentos mais ambiciosos da engenharia contemporânea. A complexidade técnica, aliada à necessidade de soluções inovadoras, abriu espaço para tecnologias desenvolvidas fora dos tradicionais centros produtores, incluindo o Brasil.
Nesse cenário, a eventual participação brasileira nas etapas mais críticas do projeto reforçou o reconhecimento internacional da engenharia nacional em soluções para dutos em ambientes confinados. Mais do que um contrato específico, o TAPI simbolizou a inserção definitiva do Brasil em um seleto grupo de países capazes de contribuir tecnicamente para obras que redefinem mapas energéticos inteiros.
Autor: Igor Kuznetsov
