Num grupo de stakeholders com posições polarizadas sobre uma decisão relevante, buscar consenso costuma ser interpretado como tentar convencer todos a concordarem com a mesma solução. Essa interpretação torna o objetivo praticamente inatingível em ambientes onde as divergências são profundas, e costuma levar quem conduz o processo a desistir de buscar qualquer forma de convergência, optando por decidir de forma unilateral ou simplesmente adiar a decisão de vez.
Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, observa que o consenso, no sentido mais útil do termo, não significa unanimidade de opinião, mas sim um nível de acordo suficiente para que todas as partes aceitem seguir adiante, mesmo sem cada uma delas preferir aquela solução específica.
A diferença entre unanimidade e consenso funcional
Unanimidade exige que todos concordem que a solução escolhida é a melhor possível. Consenso funcional exige apenas que todos aceitem viver com ela, ainda que preferissem outra coisa. Essa diferença muda completamente o tipo de pergunta que orienta a construção de um acordo: em vez de perguntar o que todos preferem, a pergunta relevante passa a ser o que todos conseguem aceitar sem sabotar a implementação depois.
Buscar unanimidade em ambientes polarizados tende a travar o processo indefinidamente, porque sempre existirá alguém que prefere outra solução. Buscar consenso funcional abre espaço para avançar mesmo quando as preferências continuam divergentes. Haroldo Augusto Filho considera essa distinção o ponto de partida mais útil para quem conduz processos com partes profundamente divididas sobre o mesmo tema.
Por que começar pelos pontos de menor divergência ajuda?
Grupos polarizados costumam ter menos pontos em comum do que parece à primeira vista, mas raramente zero. Identificar esses pontos, ainda que pequenos, e construir acordo sobre eles primeiro cria uma base de confiança que facilita lidar depois com os temas mais divididos. Haroldo Augusto Filho alude ao fato de que começar diretamente pelo ponto mais controverso costuma reforçar a polarização em vez de reduzi-la, podendo causar fricções e discordâncias mais intensas.

Além disso, destaca-se também que essa sequência, do menos para o mais divergente, funciona porque cada pequeno acordo intermediário muda a percepção que os grupos têm uns dos outros, tornando o próximo ponto de discussão menos carregado do que seria se tratado isoladamente, logo no início do processo.
O papel de nomear os pontos que não vão ser resolvidos agora
Em ambientes muito polarizados, alguns pontos de divergência genuinamente não vão se resolver dentro do prazo disponível. Reconhecer isso abertamente, em vez de insistir em resolver tudo de uma vez, permite que o grupo avance nos pontos que já têm espaço de acordo, sem ficar paralisado pelos que ainda não têm.
Haroldo Augusto Filho nota que nomear explicitamente o que fica de fora do consenso atual, com um plano claro para revisitar esses pontos depois, costuma reduzir a resistência de quem discorda, porque a discordância é reconhecida em vez de simplesmente ignorada pelo processo.
Consenso funcional é um resultado prático, não um sentimento coletivo
Medir o sucesso de um processo de construção de consenso pela ausência de desacordo remanescente é medir o critério errado. O critério mais útil é se as partes, mesmo discordando em alguns pontos, estão dispostas a seguir adiante com o que foi combinado sem sabotar a implementação por baixo dos panos. Haroldo Augusto Filho ressalta que processos que perseguem esse tipo de resultado prático, em vez de buscar unanimidade de opinião, tendem a avançar em ambientes polarizados, onde a busca por concordância plena simplesmente nunca chegaria a lugar nenhum.
