Brasil e México discutiram a criação de plataformas conjuntas para pesquisa, desenvolvimento, produção e transferência de tecnologia na área da saúde. A agenda ocorreu em 22 de setembro de 2026, na Cidade do México, durante reunião do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, com representantes da empresa pública mexicana BIRMEX.
O foco principal da conversa está nas vacinas de RNA mensageiro, também conhecidas como mRNA. A tecnologia permite orientar as células a produzir uma proteína capaz de estimular uma resposta imunológica e pode ser adaptada para diferentes doenças. No entanto, a reunião não representa o anúncio de uma vacina pronta nem estabelece, até o momento, um cronograma definido para fabricação conjunta.
Cooperação prevê pesquisa e transferência de tecnologia
Segundo o Ministério da Saúde, a proposta envolve a cooperação entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a BIRMEX e o Ministério da Saúde do México. A parceria foi estabelecida em agosto de 2025 e voltou ao centro das discussões em setembro de 2026, com a possibilidade de criação de plataformas bilaterais permanentes.
Entre as ações previstas estão o intercâmbio de pesquisadores, visitas técnicas, seminários, capacitação profissional e a busca conjunta de recursos. A intenção é contemplar diferentes etapas da cadeia de inovação, desde a pesquisa e os estudos clínicos até a fabricação e a transferência de conhecimento tecnológico.
Esse modelo de cooperação pode ampliar a capacidade dos dois países de desenvolver respostas próprias para emergências sanitárias e outras necessidades de saúde pública. A proposta, porém, ainda está relacionada à construção de mecanismos de colaboração, e não à entrega imediata de um novo imunizante à população.
Projetos brasileiros já utilizam a tecnologia de mRNA
O Brasil mantém iniciativas nacionais voltadas ao desenvolvimento de vacinas de RNA mensageiro. De acordo com o Ministério da Saúde, há projetos conduzidos pela Fiocruz, pelo Instituto Butantan e pelo Centro de Competência em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
As iniciativas contam com R$ 210 milhões em recursos do Ministério da Saúde e abrangem pesquisas para vacinas contra covid-19, leishmaniose, tuberculose, dengue, malária, doença de Chagas, influenza e raiva. Também estão incluídas aplicações terapêuticas, o que amplia o alcance da plataforma para além da prevenção de doenças infecciosas.
A Fiocruz desenvolve uma candidata a vacina contra a covid-19 baseada em mRNA. O produto foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar estudos clínicos como dose de reforço. O Instituto Butantan trabalha na implantação de uma unidade destinada à produção de vacinas com essa tecnologia, enquanto a UFMG conduz projetos relacionados a doenças infecciosas e aplicações na área de câncer.
Anvisa discute cooperação regulatória com o México
A dimensão regulatória também entrou na agenda bilateral. Em 23 de setembro de 2026, a Anvisa informou que Brasil e México discutiram novas oportunidades de colaboração entre as autoridades sanitárias dos dois países.
Os temas incluem avaliações conjuntas de terapias avançadas, cooperação em pesquisa clínica, intercâmbio de informações sobre insumos farmacêuticos ativos e experiências relacionadas à precificação de medicamentos. A aproximação regulatória pode facilitar a troca de conhecimento e contribuir para que futuras tecnologias sejam avaliadas com maior coordenação entre as instituições.
A cooperação também se relaciona ao fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde, que reúne atividades de pesquisa, produção, inovação e fornecimento de insumos e medicamentos. Para o Brasil, ampliar a capacidade nacional pode reduzir vulnerabilidades associadas à dependência de fornecedores estrangeiros, especialmente em momentos de crise sanitária.
O que foi efetivamente discutido
Até o momento, o fato confirmado é a discussão de plataformas comuns para ampliar a pesquisa, a produção e a transferência de tecnologia entre Brasil e México. Não foi anunciado um imunizante desenvolvido conjuntamente, tampouco uma data para início de fabricação ou distribuição de vacinas de RNA mensageiro produzidas pela parceria.
A próxima etapa depende do avanço das negociações, da definição de projetos, da obtenção de recursos e do cumprimento das exigências regulatórias e clínicas aplicáveis. Assim, a iniciativa representa uma frente de cooperação científica e industrial em construção, com potencial estratégico para a saúde pública, mas ainda sem resultados comerciais ou clínicos atribuídos diretamente ao acordo.
