Marcello José Abbud esclarece que a ideia de que sustentabilidade empresarial é um gasto que só companhias ricas podem bancar continua viva em muitas mesas de decisão. Ela sobrevive porque compara as coisas erradas: coloca o investimento inicial de um lado e nada do outro.
O mito não sobrevive a uma pergunta simples: para onde vai o dinheiro de uma operação que desperdiça energia, água e matéria-prima? Vai para o lixo, no sentido mais literal possível. Siga a leitura e veja que desmontar essa crença exige olhar a conta inteira, e é exatamente isso que este raciocínio propõe fazer.
De onde vem a crença de que ser sustentável sai caro?
Marcello José Abbud constata que a origem do mito tem explicação histórica. Durante muito tempo, a agenda ambiental entrou nas empresas pela porta da obrigação: licenças, multas, exigências de órgãos de controle. Nesse contexto, o meio ambiente aparecia no orçamento apenas como despesa de conformidade, nunca como fonte de resultado. O gasto era visível e imediato; o retorno, difuso e distante. Essa memória contábil moldou uma geração de gestores e segue influenciando decisões mesmo quando o cenário já mudou por completo.
Há também um erro de medição. Quem avalia práticas sustentáveis olhando apenas o desembolso inicial nunca verá o ganho, porque ele aparece em outras linhas: na fatura de energia, na compra de insumos, no custo de destinação de resíduos. O benefício existe, mas está espalhado pelo orçamento, e o que está espalhado raramente é somado.
Some-se a isso o efeito vitrine. Histórias de projetos ambientais caros e mal executados circulam mais do que os ganhos discretos de eficiência do dia a dia, porque o fracasso vistoso rende conversa e o acerto silencioso não rende manchete. O gestor médio conhece três casos de investimento verde que não se pagou, e quase nenhum do contrário.
Redução de custos: o efeito mais rápido das práticas sustentáveis
Uma indústria que passa a medir a geração de resíduos por linha de produção descobre, quase sempre, o mesmo padrão: parte do que paga para descartar é matéria-prima que comprou e não usou. Ao reduzir essa perda, cortam-se duas despesas de uma vez: a compra excedente e a destinação. Esse movimento resume a lógica financeira da sustentabilidade empresarial: eficiência ambiental e eficiência econômica são, na prática, o mesmo gesto visto de ângulos diferentes.
Práticas sustentáveis realmente reduzem custos ou só melhoram a imagem da empresa? Reduzem custos de forma mensurável: menos energia e água consumidas, menos matéria-prima desperdiçada e menos volume pago para descarte significam despesas menores já nos primeiros ciclos de operação, independentemente do efeito sobre a imagem.
A resposta curta ganha profundidade quando se olha o efeito composto. Marcello José Abbud costuma destacar que o resíduo é o retrato mais honesto da ineficiência de um processo: onde ele se acumula, há dinheiro escapando. Empresas que tratam essa medição como rotina de gestão, e não como relatório de fim de ano, encontram cortes de despesa que nenhuma auditoria financeira tradicional enxergaria.

O crescimento vem de fora: mercado, crédito e reputação
O corte de despesas explica metade do fenômeno; a outra metade vem do mercado. Grandes compradores passaram a exigir critérios socioambientais de seus fornecedores, o que transforma sustentabilidade em bilhete de entrada para contratos que antes dependiam só de preço. Instituições financeiras seguem caminho parecido, oferecendo condições diferenciadas a operações de menor risco ambiental. Nesse jogo, quem não se move não fica parado: fica de fora.
Nesse ponto, Marcello José Abbud aponta a questão de forma direta: empresas verdes crescem mais rápido porque disputam mercados que as demais nem alcançam. Não se trata de vantagem moral, e sim de acesso. O selo abre portas, mas é a operação eficiente por trás dele que sustenta o crescimento ao longo do tempo.
O que resta do mito quando a conta fecha?
Sobra, no fim, uma constatação incômoda para quem adiou a decisão: o custo real nunca foi o da sustentabilidade, e sim o da ineficiência tolerada. Toda operação que desperdiça paga por isso duas vezes, na compra e no descarte, e ainda perde mercados que passaram a exigir outra postura. O discurso verde pode ser imitado da noite para o dia; a operação enxuta que existe por trás dele, não.
Talvez essa seja a mudança de perspectiva mais útil: parar de perguntar quanto custa ser sustentável e começar a perguntar quanto custa não ser. Como conclui Marcello José Abbud, a resposta já está nos números de quem fez a transição, e ela raramente favorece a inércia.
