Imunização materna permite a transferência de anticorpos para o bebé e ajuda a prevenir doenças graves nos primeiros meses de vida; cobertura varia significativamente entre as vacinas.
A vacinação durante a gravidez voltou ao centro das discussões de saúde nesta semana por uma razão que vai além da proteção da própria gestante. Ao receber determinadas vacinas durante o pré-natal, a mulher produz anticorpos que podem atravessar a placenta e contribuir para a proteção do bebé nos primeiros meses de vida, período em que o sistema imunológico da criança ainda está em desenvolvimento.
O Calendário Nacional de Vacinação de 2026 prevê diferentes imunizantes para gestantes. Entre eles estão as vacinas contra influenza, Covid-19 e hepatite B, conforme o histórico vacinal, além da dTpa, aplicada a partir da 20.ª semana de gestação, e da vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), indicada a partir da 28.ª semana.
A estratégia tem especial importância porque algumas doenças podem provocar quadros mais graves durante a gravidez ou nos primeiros meses de vida do recém-nascido. A coqueluche, por exemplo, representa risco significativo para bebés pequenos, enquanto o VSR está entre as principais causas de bronquiolite e outras infecções respiratórias na infância.
Dados divulgados nesta semana, porém, mostram diferenças importantes na adesão. Enquanto as coberturas das vacinas dTpa e contra o VSR ultrapassam 80% entre gestantes, a imunização contra a Covid-19 encontra-se em aproximadamente 55%, segundo informações reunidas pela CNN Brasil. Especialistas relacionam parte dessa diferença à desconfiança em relação aos imunizantes e à falta de orientação durante o pré-natal.
Como a vacinação da gestante também protege o bebé?
O mecanismo ocorre através da chamada imunidade passiva. Depois da vacinação, o organismo da gestante produz anticorpos específicos contra determinados agentes infecciosos. Parte desses anticorpos atravessa a placenta e chega ao bebé antes do nascimento.
Essa proteção é particularmente importante nos primeiros meses, quando a criança ainda não completou o seu próprio calendário de vacinação. Em algumas doenças, existe uma janela de vulnerabilidade entre o nascimento e o momento em que o bebé poderá receber as primeiras doses ou desenvolver uma resposta imunológica adequada.
A vacinação contra o VSR tornou-se um dos exemplos mais recentes dessa estratégia no SUS. A dose é recomendada a partir da 28.ª semana de gestação e tem como objetivo reduzir o risco de bronquiolite, pneumonia e outras complicações associadas ao vírus durante os primeiros seis meses de vida.
A dTpa desempenha papel semelhante contra a coqueluche. O Ministério da Saúde recomenda uma dose a partir da 20.ª semana em cada gestação, independentemente de a mulher já ter recebido o imunizante anteriormente.
Quais vacinas são recomendadas durante a gravidez?
O calendário de 2026 estabelece diferentes recomendações de acordo com a vacina e o histórico de imunização da gestante. A influenza trivalente é indicada com uma dose por temporada, enquanto a vacinação contra Covid-19 prevê uma dose em cada gestação.
A vacina contra hepatite B deve ser atualizada de acordo com o histórico vacinal. A dupla adulto, que protege contra difteria e tétano, também pode integrar a atualização do esquema quando necessário.
Já a dTpa deve ser administrada em cada gravidez a partir da 20.ª semana. Ela protege contra difteria, tétano e coqueluche e contribui para que anticorpos maternos sejam transferidos para o bebé antes do nascimento.
A vacina contra o VSR é administrada em dose única a partir da 28.ª semana em cada gestação. Segundo o Ministério da Saúde, ela pode ser aplicada no mesmo dia que outros imunizantes recomendados às gestantes, desde que sejam observadas as boas práticas de vacinação.
Por que a cobertura ainda preocupa?
A adesão não é uniforme entre os diferentes imunizantes. Dados divulgados em setembro mostram que dTpa e VSR apresentam cobertura superior a 80%, enquanto a vacinação contra Covid-19 entre gestantes permanece consideravelmente abaixo desse patamar.
Especialistas ouvidos pela CNN Brasil apontam a desconfiança em relação às vacinas contra Covid-19 como um dos fatores que ajudam a explicar essa diferença. A falta de orientação durante o acompanhamento pré-natal também aparece como uma barreira.
A desinformação nas redes sociais tornou-se outro desafio para as campanhas de imunização. Dúvidas sobre possíveis efeitos das vacinas durante a gravidez podem levar algumas mulheres a adiar ou evitar doses previstas no calendário.
Nesse cenário, profissionais de saúde têm papel importante. A discussão sobre vacinação durante as consultas de pré-natal permite avaliar o histórico individual da gestante, identificar doses em atraso e organizar o calendário adequado para cada fase da gravidez.
Por que o VSR ganhou importância no calendário?
O vírus sincicial respiratório pode provocar infecções respiratórias e é particularmente relevante nos primeiros meses de vida. Em bebés, está associado a casos de bronquiolite e pneumonia que podem exigir atendimento hospitalar.
A estratégia de vacinar a gestante permite que os anticorpos produzidos pela mãe sejam transferidos para o feto através da placenta. Segundo o Ministério da Saúde, essa imunidade passiva procura proteger a criança durante os primeiros seis meses de vida, justamente quando existe maior risco de formas graves da doença.
A incorporação dessa vacina ampliou a estratégia de imunização materna no Brasil. Ela passou a complementar vacinas que já faziam parte da rotina de acompanhamento das gestantes, como dTpa, influenza e hepatite B.
A vacinação durante a gravidez, portanto, funciona como uma estratégia de proteção em duas frentes: reduz riscos para a mulher e, dependendo do imunizante, fornece anticorpos ao bebé antes mesmo do nascimento.
Com diferenças ainda expressivas nas taxas de cobertura, o desafio passa por ampliar a informação durante o pré-natal e facilitar o acesso às doses recomendadas. Gestantes devem verificar a caderneta de vacinação com a equipa responsável pelo acompanhamento pré-natal, já que a indicação e o momento de cada vacina dependem do histórico vacinal e da fase da gestação.
Fontes: Calendário Nacional de Vacinação 2026 — Ministério da Saúde · Ministério da Saúde — vacinação contra o VSR durante a gestação · Ministério da Saúde — vacina dTpa · CNN Brasil — cobertura vacinal entre gestantes · UOL VivaBem — vacinação durante a gravidez
